O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, fala durante reunião da Liga Árabe para discutir a guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, Cairo, 15 de fevereiro de 2024. (Foto: AFP)

Brasília, Brasil (Reuters) – A comparação feita pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, da campanha militar de Israel em Gaza com o Holocausto desencadeou uma tempestade diplomática que resultou na demissão do embaixador brasileiro na segunda-feira e na declaração de Israel de Lula como “persona non grata”.

A disputa eclodiu um dia antes, quando Lula disse que o conflito em curso em Gaza “não era uma guerra, é um genocídio” e comparou-o a “quando Hitler decidiu matar os judeus”.

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O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que Lula “ultrapassou a linha vermelha”. Seu governo convocou o embaixador brasileiro para uma reunião na segunda-feira com o ministro das Relações Exteriores, Israel Katz, no Centro Memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém.

“Ele é persona non grata no Estado de Israel até que retire seus comentários e peça desculpas”, disse Katz sobre Lula.

Em troca, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse então que também convocou o embaixador de Israel no Brasil para uma reunião mais tarde naquele dia e convocou o seu próprio embaixador em Tel Aviv para consultas, “dada a seriedade das declarações feitas esta manhã pelo governo de Israel”.

O comunicado dizia que o embaixador brasileiro deixaria Tel Aviv na terça-feira.

Reunião do G20

O veterano esquerdista Lula, 78 anos, é uma voz proeminente no Sul Global, cujo país detém atualmente a presidência rotativa do G20.

Seus comentários foram feitos enquanto o Brasil se preparava para a reunião de quarta e quinta-feira dos ministros das Relações Exteriores do G20, quando os principais diplomatas, incluindo o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, se reunirão no Rio de Janeiro e o conflito na Faixa de Gaza será o principal tema principal da discussão.

Segundo dados oficiais israelitas da AFP, a guerra começou em 7 de outubro, quando o Hamas realizou um ataque sem precedentes que matou cerca de 1.160 pessoas, a maioria civis, no sul de Israel.

Os combatentes do Hamas também fizeram cerca de 250 reféns, dos quais Israel afirma que 130 permanecem em Gaza, incluindo 30 presumivelmente mortos.

De acordo com os últimos cálculos do Ministério da Saúde do território controlado pelo Hamas, pelo menos 29.092 pessoas, a maioria mulheres e crianças, foram mortas em retaliação israelita.

Divisão política

Após o ataque do Hamas, Lula condenou-o como um ato “terrorista”.

No entanto, desde então ele se tornou veemente em suas críticas à resposta de Israel.

Ele enfrentou uma forte reação interna aos seus últimos comentários sobre o conflito, feitos durante uma conferência de imprensa à margem da cimeira da União Africana em Adis Abeba.

O Instituto Brasileiro-Israelense chamou seus comentários de “vulgares” e alertou que eles poderiam “alimentar o anti-semitismo”.

A Confederação Israelita no Brasil chamou isso de “uma distorção perversa da realidade (que) insulta a memória das vítimas do Holocausto e de seus descendentes”.

A Alemanha nazista exterminou sistematicamente seis milhões de judeus durante o Holocausto – cerca de um terço da população judaica mundial.

Após a Segunda Guerra Mundial, o recém-criado Estado de Israel acolheu centenas de milhares de sobreviventes.

Os oponentes conservadores de Lula também reagiram duramente às suas observações, irritando muitos na poderosa comunidade cristã evangélica que é firmemente pró-Israel.

“Lula não apenas mostrou sua ignorância da história, mas mostrou ao mundo o ódio em seu coração pelo Estado de Israel”, escreveu no X, antigo Twitter, o legislador Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro.

Enquanto isso, aliados políticos correram em defesa de Lula. A primeira-dama Rosangela “Janja” da Silva, antiga militante do Partido dos Trabalhadores (PT), afirmou que as suas observações “defenderam… mulheres e crianças, que constituem a maioria das vítimas” do conflito.


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“Suas declarações referiam-se ao governo genocida (israelense), não ao povo judeu”, escreveu ela no X.



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